Biomas Brasileiros

Biomas Brasileiros

Por José Alberto Gonçalves

Costumamos observar o mundo dividido em continentes, países, Estados e cidades. Mas raramente nos damos conta de que vivemos em um determinado bioma. Os moradores de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória, por exemplo, habitam territórios situados na mata atlântica. Já cidadãos de Goiânia, Brasília e Cuiabá vivem no cerrado.

Há muitas definições sobre o conceito, que começou a ser utilizado mais enfaticamente a partir da década de 1990 para facilitar o planejamento de ações de conservação e proteção ambiental específicas para cada bioma.

Segundo a definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bioma é um conjunto de espécies animais e vegetais que vivem em formações vegetais vizinhas em um território que possui condições climáticas similares e história compartilhada de mudanças ambientais, o que resulta em uma diversidade biológica própria.

O bioma pode ser nomeado em função da vegetação predominante (caso da amazônia, cerrado e mata atlântica), relevo (pantanal), condições climáticas (exemplo da caatinga no semiárido nordestino) ou meio físico (bioma zonas costeira e marinha).

No mapa de biomas brasileiros, lançado pelo IBGE em 2004, um mesmo bioma contém paisagens distintas da vegetação dominante. É o caso dos campos e manchas de cerrado existentes na amazônia. Ao considerar ecossistemas distintos do predominante em um mesmo bioma, tenta-se mostrar que eles precisam ser tratados de maneira integrada. O que afeta um ecossistema provoca impactos em outros ecossistemas vizinhos, mesmo que o primeiro não seja a paisagem preponderante.

“Leis que protegem uma espécie isolada, como é o caso da araucária no Sul e da castanheira na amazônia, foram erros históricos da política de conservação”, lamenta o professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, do laboratório de ecologia e restauração florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, interior de São Paulo. Para ele, o conceito de bioma favorece a promoção de ações comuns no todo dessa região ecológica, mesmo que haja formações vegetais diferentes da dominante.

Desafio

O grande desafio enfrentado hoje pela humanidade é se relacionar mais harmonicamente com os biomas, que influenciam as escolhas de atividades econômicas (criação extensiva de gado no pampa e no pantanal, por exemplo), lazer, estudo,  a localização e o tipo de moradia (como as ocas indígenas feitas com palhas da mata).

Inversamente, ações humanas podem colaborar com uma relação mais harmônica, bem como causar danos consideráveis aos biomas. Ao longo dos últimos dois séculos, preponderou a tônica de moldar os biomas segundo a vontade humana.

Na mata atlântica, por exemplo, onde se situa a maior parte da população e da indústria brasileira, árvores foram removidas para dar lugar a lavouras, pastagens, rodovias, ruas, avenidas, prédios e casas. Rios foram canalizados e cobertos pela malha viária das cidades.

O resultado foi a impermeabilização do solo, a diminuição do número de espécies animais e vegetais no bioma e o estrangulamento do leito dos rios, que não podiam mais se esparramar pelas várzeas, aterradas para abrir espaço ao progresso.

Desde a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992 (Eco-92), a figura do bioma vem ganhando mais importância nas políticas públicas de meio ambiente, nas estratégias de sustentabilidade das empresas e nas campanhas de organizações ambientalistas.

Um exemplo notável desse movimento de revalorização dos processos ecológicos no mundo urbano é o da restauração de rios em Seul, capital da Coreia do Sul. Vias públicas que cobriam rios que cortam a capital sul-coreana estão sendo destruídas e parques implantados para ajudar na absorção de água quando chuvas mais intensas aumentam o nível dos rios.

A inclusão do conceito de bioma no planejamento de obras públicas, instalação e expansão de fábricas, fazendas, empreendimentos imobiliários, hoteleiros e turísticos poderá mudar a lógica atual de desenvolvimento, que geralmente trata o meio ambiente mais como problema que como solução para uma economia mais limpa e sustentável.

“O conceito de bioma permite regionalizar as políticas ambientais. A agricultura e outros setores econômicos também deveriam trabalhar com a ideia de bioma”, sugere Ricardo Machado, professor do departamento de zoologia da Universidade de Brasília (UnB).

Os biomas podem ser vistos em diferentes configurações geográficas. Do ponto de vista global, os grandes biomas são as florestas tropicais, as florestas de coníferas (clima temperado), os desertos gelados e quentes, as savanas e as tundras nas regiões geladas do planeta (Ártico e montanhas).

No plano nacional, os países também estabelecem seus biomas, que geralmente correspondem aos biomas globais (o cerrado, por exemplo, é um tipo de savana). De acordo com o IBGE, os seis biomas continentais do Brasil são: amazônia, cerrado, pantanal, caatinga, mata atlântica e pampa. Especialistas em biodiversidade acrescentam as zonas costeira e marinha como o sétimo bioma, ainda não reconhecido oficialmente.

Veja a seguir uma breve introdução aos sete biomas brasileiros.

Amazônia

Com 4,2 milhões de quilômetros quadrados, a amazônia é o maior bioma brasileiro, representando 49% do território nacional. A vegetação dominante é a floresta amazônica, tropical úmida, com árvores de médio e grande porte que mantêm suas folhas o ano inteiro.

É por causa da amazônia que o Brasil ocupa a posição de país mais megadiverso. Só nesse bioma há quase 30 mil espécies de plantas, ou metade das espécies vegetais existentes no país e 20% das espécies de plantas da Terra. A fauna compreende 4.211 espécies, 80% das espécies animais do Brasil e 9% do total mundial. Sua rica fauna e flora comprovam a importância da amazônia para a conservação da biodiversidade no globo terrestre.

Outro serviço ambiental estratégico para o planeta é prestado na área climática. Boa parte das chuvas que caem nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e na Argentina, Paraguai e Uruguai tem origem no sistema de evaporação e transpiração das plantas e árvores amazônicas. A relação do bioma com o clima também ocorre na limpeza de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, contribuindo para atenuar o aquecimento global.

Da amazônia vêm dez ativos usados nos produtos Natura Ekos:  açaí, andiroba, breu branco, cacau, castanha, cupuaçu, estoraque, maracujá, murumuru e priprioca.

Cerrado

O cerrado hospeda as nascentes dos principais rios brasileiros. Apenas essa informação já é suficiente para justificar a necessidade de conservação da vegetação, que retém no solo as águas das chuvas, ajudando na reposição de água nas nascentes. A cobertura vegetal também protege o solo das enxurradas.

O cerrado típico possui árvores baixas de troncos tortuosos e galhos retorcidos que se encontram esparsas em meio a arbustos e a um tapete de gramíneas. Profundas, as raízes das árvores atingem de 15 a 20 metros, condição que lhes permite absorver água do lençol freático e sobreviver na estação quente e seca.

Do cerrado vem um ativo usado nos produtos Natura Ekos: o buriti.

Mata Atlântica

A mata atlântica é um dos biomas com maior diversidade de espécies vegetais e animais do planeta. É, também, um dos que possui as mais elevadas taxas de endemismo (espécies que são exclusivas de um bioma). Ela esparrama-se por 17 Estados, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, acompanhando o litoral brasileiro, com diversos tipos de vegetação, clima, relevo, ecossistemas e fauna.

Calor intenso e chuvas volumosas favorecem o desenvolvimento de plantas e animais em abundância. Das cerca de 20 mil espécies de planta lá conhecidas, oito mil são endêmicas (40% do total). Entre árvores de destaque no bioma, estão o jequitibá-rosa, o pinheiro-do-paraná, o cedro, as figueiras, os ipês, a braúna e o pau-brasil.

Observando a fauna atlântica como um todo, a taxa de endemismo continua bastante elevada. Das 1.361 espécies animais, 567 habitam apenas no bioma atlântico, de acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Da mata atlântica vêm quatro ativos usados nos produtos Natura Ekos: cacau, capim-limão, maracujá e pitanga.

Caatinga

A vegetação da Caatinga adaptou-se ao clima semiárido do sertão nordestino (quente e seco) com arbustos e árvores baixas de folhas finas ou inexistentes, o que diminui a perda de água por evaporação. As chuvas são irregulares, tornando os rios intermitentes e pouco volumosos, e o solo, raso e pedregoso.

Apesar de ser o único bioma exclusivamente brasileiro, a caatinga não foi reconhecida como patrimônio nacional na Constituição promulgada em 1988, como ocorreu com a floresta amazônica, o pantanal, a mata atlântica e a zona costeira. É um dos biomas com menor proporção de áreas protegidas, 6% de sua área total.

Pampas

O único bioma brasileiro situado nos limites de um único Estado são os pampas, que ocupam a metade sul do Rio Grande do Sul, ou 63% do território gaúcho. Predomina no bioma a vegetação de campos, onde há muitos arbustos e gramíneas.

Por não ser uma formação florestal, os pampas não têm sido tratados como área prioritária para a conservação. Menos de 1% de seu território está protegido por Unidades de Conservação (UCs). A biodiversidade dos pampas tem declinado bastante desde o começo da década de 1970 em virtude da expansão acelerada da atividade agropecuária e, nos últimos anos, pelo plantio de eucalipto.

Dos pampas vem um ativo usado nos produtos Natura Ekos: o mate verde.

Pantanal

Estudo recente de um grupo de organizações não-governamentais apontou que perto de 15% de sua vegetação foi removida ou degradada, mas restam 85% de mata intacta. O dado foi um dos resultados do mapeamento da bacia do Alto Paraguai, onde está localizada a planície pantaneira, concluído em 2009 pelas organizações Avina, Conservação Internacional, Ecoa, SOS Mata Atlântica e WWF-Brasil.

Como seu solo é pobre e anualmente, durante a estação chuvosa, o bioma é pouco propício à agricultura comercial e à ocupação humana em larga escala. Uma das maiores áreas alagadas do planeta, o pantanal possui cerca de 140 mil quilômetros quadrados distribuídos em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Zonas Costeira e Marinha

Os oceanos desempenham papel fundamental no clima da Terra, ao absorver um quarto do gás carbônico lançado na atmosfera pela queima de carvão e derivados de petróleo na geração de energia e pela destruição das florestas. Sem isso, o efeito estufa seria muito mais intenso com impactos ainda mais danosos à vida na Terra.

Embora não constem no mapa de biomas do IBGE, organizações não-governamentais, cientistas e órgãos ambientais atuam nas zonas costeira e Marinha como se fossem um bioma. Sua área de 4,5 milhões de quilômetros quadrados equivale a mais de 50% do território brasileiro, o que levou a Marinha a chamá-la de Amazônia Azul.


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